“Colocando de forma mais clara: o desejo por segurança e o sentimento de insegurança são a mesma coisa. Prender a respiração é perder a respiração. Uma sociedade baseada na busca da segurança não passa de uma competição de prender a respiração, na qual todas as pessoas estão tão tensas como um tambor e tão roxas como uma beterraba.

Alan Watts, em The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety

Virada Cultural: A vocação de SP para erguer muros separando ricos e pobres

A alma encantadora das ruas

A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas.

João do Rio, como ficou conhecido João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi um escritor brasileiro conhecido pelos contos, concentrados nos primeiros anos de 1900, que tratavam da sociedade e, especialmente, do Rio de Janeiro e seus cidadãos.

Em A alma encantadora das ruas, o autor extrai do Rio de Janeiro do início do século XX aquilo que representa o seu cerne: a rua e seus personagens. O autor a glorifica e descreve esse universo – mercadores a gritar, pintores e estivadores, vagabundos e ladrões, os chineses e seu ópio, prostitutas e pedintes –  de uma forma tão atual que, não fossem os parágrafos rebuscados, seria possível imaginar seus textos sendo escritos dias atrás.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da multidão, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes.

O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.

Mimimi

Quando você rotula algo como mimimi, você faz isso porque já tentou se posicionar dentro da questão abordada ou, na real, só usa a expressão como um eufemismo para “eu tenho preguiça de / não tenho interesse em tentar entender outro ponto de vista”?
 
Sendo a segunda alternativa correta, você pode trocar o mimimi por calar a boca e assumir que pouco lhe importam os motivos alheios. Além de mais honesto, é show de bola ficar quieto em assuntos que não dominamos nem queremos dominar.

Sabedoria radical, por Ricardo Semler

Na manhã de hoje, parei pra ler o jornal e uma coluna me chamou a atenção. Ela, resumidamente, encorajava o leitor, frente a uma discussão política dentro das redes sociais, a ser adulto: analisar fatos, discutir novas ideias e praticar a empatia. Isso, de acordo com o colunista, elevaria o nível do debate e contribuiria e muito para a criação de um ambiente mais sadio ou, no mínimo, menos nocivo.

Ao abrir, dias atrás, um texto com o título “Se você responde emails após o trabalho, você deveria ter férias ilimitadas” (em inglês), percebi que Ricardo Semler pensou algo assim para a Semco, sua empresa. Tudo lá é tratado como uma relação de adultos para adultos, onde cada um lava a sua louça e fortalece os laços para que o grupo todo esteja em uníssono.

“Todos nós aprendemos a acessar nosso email num domingo à noite e trabalhar de casa. Mas poucos de nós aprenderam a ir ao cinema segunda-feira à tarde.”

Percebi então que esse nome, Ricardo Semler, não me era estranho. Ricardo escreveu, em 2014, sua visão de que nunca se havia roubado tão pouco no país. Na época, o título me chamou a atenção, porém não tanto quanto as chamadas que o acompanhavam, todas com claras inclinações à esquerda: “vejam só um tucano falando de algumas benfeitorias do governo atual”. Tirando o jogo partidário infantil que é gerado por textos assim, a súplica do texto é a mesma do colunista do primeiro parágrafo: por favor, sejamos adultos.

Na conversa abaixo, Ricardo explica como, 30 anos atrás, a Semco começou a mudar a forma de tratar a própria companhia e seus funcionários –  gerenciamento horizontal, transparência pesada, férias e salários definidos pelas próprias pessoas, entre outras tantas coisas legais – e como essa experiência gerou a escola Lumiar, o seu ideal de educação para o fututo. Ele aproveita também para comentar sobre sabedoria e controle, princípios também abordados por Alan Watts em seu livro “A sabedoria da insegurança” (The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety, no original). Nele, Watts explica como a nossa necessidade por segurança e controle é o que causa, ironicamente, a sensação de que estamos inseguros. E parece que Ricardo compartilha essa admirável visão.

https://embed-ssl.ted.com/talks/ricardo_semler_radical_wisdom_for_a_company_a_school_a_life.html

Auto-sabotagem

É normal esperar que nós sempre iremos, quase que instintivamente, procurar a nossa própria felicidade; especialmente em duas grandes áreas de potencial satisfação: relacionamentos e carreira.

Então, é estranho e um tanto quanto desanimador descobrir quão frequente alguns de nós parecemos agir como se estivéssemos deliberadamente tentando arruinar as nossas chances de termos o que nós achamos que queremos.

Quando vamos a encontros com candidatos e candidatas por quem nos interessamos, podemos subitamente cair em um desnecessário comportamento de teimosia ou de oposição.

Não temos dificuldade em usar nosso charme com pessoas em quem não estamos tão interessadas assim. Ou, em relacionamentos, podemos desorientar nossos parceiros através de repetidas e infundadas acusações ou ataques de raiva como se quiséssemos, de alguma forma, entristecer nosso dia quando, exaustos e frustrados, as pessoas de quem gostamos são forçadas a sair de perto, ainda complacentes, mas incapazes de aguentar tanto drama.

Da mesma forma, poderíamos destruir nossas chances de promoção no trabalho quando, de repente, depois de muitos anos promissores, ficamos ásperos com os nossos gerentes e, em várias ocasiões, deixamos de entregar relatórios a tempo para as reuniões.

Tal comportamento não pode ser explicado como simplesmente falta de sorte. Merece um termo mais forte, intencional. Isto é a auto-sabotagem.

O que poderia explicar tal comportamento destrutivo? Em grande parte, quão enervante a felicidade pode nos parecer? Apesar da felicidade ser, claro, aquilo que nós essencialmente queremos, para muitos de nós isso não é conhecido.

Nós crescemos e aprendemos a fazer as pazes com situações muito mais tenebrosas. A perspectiva de felicidade, quando aparece, pode parecer um pouco fora de juízo e bastante assustadora. Não é o que esperamos e não nos faz sentir em casa. Nós podemos acabar escolhendo aquilo que é confortavelmente familiar, mesmo que seja difícil, em vez do que é bom e gratificante. Conseguir o que queremos pode parecer insuportavelmente arriscado. Isso nos coloca à mercê do destino. Nós nos abrimos para a esperança e para a subsequente possibilidade de perda. A auto-sabotagem pode nos deixar tristes, porém segura e felizmente em controle.

Pode ser útil manter o conceito de auto-sabotagem em mente ao interpretar comportamentos esquisitos em nós e nos outros.

Devemos suspeitar quando nos pegamos tendo atuações instáveis perto de pessoas das quais gostamos ou precisamos impressionar.

Além disso, diante da maldade e da falta de confiança alheios, ousemos imaginar que, talvez, as coisas não sejam o que parecem. Quem sabe, nós acabamos encontrando não um desagradável e nocivo oponente, mas um auto-sabotador ferido, que merece um pouco de paciência e deve ser gentilmente estimulado a parar de se fazer mal. Nós devemos nos familiarizar com esta questão e ajudar os outros a ver quão difícil e desanimador pode ser, às vezes, estar perto das coisas que realmente desejamos.


Traduzido com base na transcrição desta maravilhosa pessoa.

Empreender-se em rede, com Oswaldo Oliveira: as redes

“Around December 1966, I presented a paper at the American Marketing Association called ‘Marketing in the Year 2000.’ I described push-and-pull communications and how we’re going to do our shopping via a television set and a virtual department store. If you want to buy a drill, you click on Hardware and that shows Tools and you click on that and go deeper.”

Paul Baran, em entrevista para a Wired

Paul Baran foi um dos pilares daquilo que conheceríamos, décadas depois, como internet. Foi ele que, durante a época de Guerra Fria, repensou o modelo dos centros de comunicação: em vez de algo centralizado, a ideia era de uma comunicação totalmente distribuída, dificultando a desativação dos sistemas em caso de ataque inimigo direcionado. Seu diagrama é hoje amplamente usado para também explicar como deveríamos nós, enquanto sociedade, agir.

Diagrama de Paul Baran
O diagrama de Paul Baran, presente em On Distributed Communications, de 1964. Nele, são mostrados os diferentes tipos de comunicação: centralizada, descentralizada e distribuída.

Comunicação centralizada: altamente conhecida por nós. Palestrantes, âncoras de telejornais, políticos em palanque, todos eles funcionam como nó central transmissor de uma informação.

Comunicação descentralizada: nada mais é do que pequenas cadeias centralizadoras que se unem em alguns pontos. Essa estrutura hierárquica rege praticamente todas as nossas interações – um grupo de trabalho que possui um chefe, este chefe possui outro chefe e todas essas pessoas ainda estão sob o guarda-chuva do verdadeiro comandante.

Comunicação distribuída: nela, cada nó é um emissor em potencial. Não há cadeia de comando, mas sim pessoas que se reconhecem em rede e tem a intenção de mantê-la pulsando.

No vídeo do TEDx Floripa, Oswaldo explica um pouco sobre os paradigmas de escassez e de abundância e cai no conceito das redes. Ele também fala um pouco da Madalena 80, a casa experimental que veio antes da Laboriosa.

“Queremos falar com os líderes do movimento”

Nas manifestações em 2013, no Brasil, uma das coisas que me incomodaram foi ver o repúdio às bandeiras partidárias e de movimentos sociais organizados. Me parecia ridículo e até mesmo agressivo. Ainda intrigado, hoje somo outros olhos a esse comportamento: foi, talvez, uma simples repulsa a qualquer tipo de tomada de voz.

They live
They Live, de 1988

Visto geralmente em abelhas, o comportamento chamado de swarming (enxameamento) é hoje também utilizado também designar o movimento em grupo feito por peixes, aves e outros seres. É o movimento coletivo de um grande número de indivíduos que se organizam sem nenhuma centralização de comando.

Basic models of flocking behavior are controlled by three simple rules:

  • Separation – avoid crowding neighbors (short range repulsion)
  • Alignment – steer towards average heading of neighbors
  • Cohesion – steer towards average position of neighbors (long range attraction)

With these three simple rules, the flock moves in an extremely realistic way, creating complex motion and interaction that would be extremely hard to create otherwise.

Flocking, o comportamento dos pássaros

A rede é a interação que acontece entre os nós, e é dessa interação que ela se alimenta. O que muda uma rede, então, é a sua forma, não o conteúdo. Sem cadeia de comando ou nós centralizadores, a informação flui naturalmente entre os que se reconhecem. Sem líderes, a rede se auto-organiza de acordo com a necessidade.

De acordo com Augusto de Franco, criador da Escola de Redes, as redes são locais de interação, não de participação. Participação implica em fazer parte, em entrar numa rede e jogar de acordo com o que existe. Interação, pelo outro lado, é o cria o ambiente: não se entra na rede, mas entra-se em rede.

A natureza é cíclica e nada é perene

Na conversa que tivemos com o Oswaldo, ele nos contou um pouco sobre o fim do seu ciclo na Laboriosa 89. Um ano após a sua aposta de pagar 12 meses adiantados de aluguel, ele resolveu não renovar o contrato por achar que o seu objetivo de fomentar o trabalho em rede já havia sido alcançado. Com seu afastamento, a casa ficou então sob os cuidados de Fabio Novo, proprietário da casa e responsável por comunicar, seis meses depois, o encerramento das atividades da Laboriosa 89.

Pra mim, que não cheguei a conhecer a casa, ficam só as palavras e depoimentos. Deles, percebi que o caos nunca foi um problema na Laboriosa. Mais que isso, os conflitos existiam e, como explica Oswaldo no vídeo, eram resolvidos ou não pelas partes que nele se encontravam. Com o proprietário, contudo, vieram novas caras e atitudes. Os questionamentos com o lixo e os pedidos de ajuda na hora de pagar as contas levaram ao recrutamento de responsáveis por cada um dos cômodos. Consequentemente, a arrecadação mensal diminuiu ainda mais. A cartada final foi o fechamento de um dos espaços da casa e seu uso condicionado ao pagamento do aluguel. A Laboriosa foi lentamente se tornando um lugar com cadeia de comando e portas chaveadas. Da abundância para a escassez.

Para Oswaldo, entretanto, nada mais normal: é simplesmente o fim de um ciclo.

“A casa será entregue e a rede continuará a sua manifestação em outros lugares. Alguns já existem e, no tempo deles, morrerão também. Outros não existem ainda mas nascerão, no seu tempo. E assim a vida segue tendo como única constante a transformação”

Oswaldo Oliveira, em entrevista para a Draft

É ler os comentários do post de encerramento e confirmar a frase acima. A reverberação continua.


Referências

Empreender-se em rede, com Oswaldo Oliveira: introdução e o conceito de abundância

Parece importante refletir um pouco sobre pontos que hoje são tão incômodos: a falta de colaboração, a ausência de empatia e a constante necessidade por mais e mais. É difícil fugir desse ranço cultural, mas, a partir do momento em que você começa a encontrar tantas pessoas agindo de forma diferente daquelas que aprendemos por tantos anos, parece que um novo mundo se abre. Digo então que não foi por acaso que encontrei a Laboriosa89.

A casa, ideia de Oswaldo Oliveira, fica no número 89 da rua Laboriosa, em São Paulo, e tem como lema ser “livre, abundante, auto-gerida e baseada na confiança”. O conceito parece difícil de explicar, especialmente para os que vem do mundo corporativo. Não há chefes, diretoria ou hierarquia qualquer, somente a ideia de que todos podem ser responsáveis, havendo apenas uma premissa: é possível fazer o que quiser, desde que você não impeça os outros de agir da mesma forma. Também não há curadoria, análise prévia ou decisão para o uso da Laboriosa89. Ademais, com custos abertos e a contribuição totalmente voluntária, pagam aqueles que querem manter o espaço em pleno funcionamento, sendo que ninguém lucra com isso. Apenas a casa e o todo.

Usando como base seus experimentos, Oswaldo criou o Empreender-se em rede, que também funciona como grupo aberto no Facebook. A intensa conversa realizada n’A Casa é Sua durante os dias 11 e 12 de julho abordou quatro frentes: o paradigma da escassez e o paradigma da abundância, organização em rede, identificação das necessidades da rede, como incluir-se em rede e como remunerar-se por ela, temas que pretendo tratar separadamente aqui. Dentro de todos os itens, palavras e expressões como autoconhecimento, intenção de vida, sistema, experiências, evolução e reconhecimento de valor foram recorrentes, mostrando que, para se estar em rede, antes de tudo é preciso entender quem você é e que espaço ocupa neste mundo.

Antes de tudo

Havia um rascunho de texto aqui em que eu citava um capítulo do livro You Are Not So Smart, de David McRaney, onde o autor explica um pouco sobre O jogo dos bens públicos e também sobre a tragédia dos comuns, ideia oriunda de um artigo homônimo de 1968, escrito por Garrett Hardin, que sugeria que nós não somos bons colaboradores.

Deu ruim

No livro, McRaney faz o paralelo com um lago recheado de peixes, cujo paradeiro só você e outras três pessoas conhecem. Todos concordam em apenas retirar os peixes necessários para a sua alimentação, mantendo assim o lago e seu ecossistema. Porém, você percebe que alguém começou a retirar mais que precisa e está vendendo a sobra dos peixes.

Caso você comece a pescar mais, você também poderá comprar uma vara melhor, quiçá um barco. Talvez você possa se juntar aos outros e lutar contra o trapaceiro. Talvez todos começarão a pescar quantos peixes der na telha. Talvez você possa apenas contar para o resto do mundo sobre o lago. Todos esses cenários provavelmente levarão à destruição do bem comum. Se você nada fizer, o lago continuará sustentando você e os outros dois, mas o trapaceiro vencerá. É impossível não sentir raiva frente a situações injustas.

Em condições como esta do lago imaginário, em um esforço para não ficar pra trás, todos perdem. Uma grande refeição de feriado, por exemplo, pode se tornar um desastre se todos resolverem entupir o prato de comida. Porém, se cada um apenas pegar o necessário, todos ganham. A tragédia em retirar demais do bem comum é que, após certo tempo, ele se esgota apenas com uma mínima quantidade de ganância. Um aproveitador pode rachar o sistema. A ganância é contagiosa.

O jogo dos bens públicos é explicado logo a seguir. Um grupo de pessoas recebe alguns reais e é informado de que é possível colocar uma quantia qualquer dentro de um pote comunitário. Para cada rodada de doação, o pesquisador então dobra o valor do pote, e assim todos recebem de volta uma porção igual.

Se temos dez pessoas e cada uma recebe 2 reais, e então cada uma coloca essa quantidade no pote, o total será de R$ 20. O total é então dobrado e dividido entre os dez, e todos recebem R$ 4. O jogo segue bem por algumas rodadas – afinal, se todo mundo colocar sempre a máxima quantidade possível no pote comunitário, todo mundo ganha – até alguém perceber que pode colocar bem pouco, ou até mesmo nada, e ganhar mais dinheiro que os outros. O comportamento se espalha ao ponto de não haver mais valor a ser dobrado e, consequentemente, dividido.

O mais bizarro desse jogo é o quão ilógico é parar de contribuir só porque alguém do grupo está sendo um parasita. Se todos os outros estão sendo bons cidadãos dentro do jogo, todos continuam ganhando. O velho e emotivo cérebro entra em ação, entretanto, quando você percebe a trapaça. É uma resposta natural que serviu muito bem a seus antepassados. Você sabe lá no fundo que trapaceiros devem ser punidos porque basta apenas um deles para que a economia se estrague. Você prefere perder o jogo a ajudar alguém que não está lhe ajudando.

O impulso de ajudar terceiros e desencorajar trapaças foi algo que auxiliou primatas como você a sobreviverem em pequenos grupos por milhões de anos, mas quando o sistema se torna tão gigantesco e abstrato como o orçamento de uma nação ou o estado de bem-estar social, fica difícil ver o mundo através desses velhos comportamentos evolucionários.

Os paradigmas da escassez e da abundância

O paradigma da escassez
O paradigma da escassez, em imagem surrupiada do site da Laboriosa89

O ensaio de Hardin, no entanto, ainda sofre severas críticas, inclusive a de que o seu modelo impulsionou aquilo que tentava explicar: temos recursos suficientes, mas não sabemos gerenciá-los e o resultado será, no final, sempre negativo. A solução? Colocar pessoas e instituições no comando. O problema? Não há evidências de que isso seja um comportamento global. Hardin só afirmou que a sociedade é, como um todo, egoísta, e que a nossa colaboração em rede nos levará para a perdição.

In short, Hardin didn’t describe the behavior of herdsmen in pre-capitalist farming communities — he described the behavior of capitalists operating in a capitalist economy. The universal human nature that he claimed would always destroy common resources is actually the profit-driven “grow or die” behavior of corporations.

The myth of the Tragedy of the Commons, por Ian Angus

E, às vezes, parece que é assim que as coisas funcionam. Hoje, a sociedade age de forma perene em uma vida finita: estudamos e entramos na universidade com a mentalidade competitiva, fazemos os mesmos trabalhos durante a vida toda, queremos estabilidade financeira e estocamos, guardamos e mantemos porque, no fundo, o medo de faltar se sobressai ao impulso de se dividir. Os paradigmas explicam esses diferentes meios de olhar a nossa realidade: em vez da lógica da competitividade, do estoque, do medo e da escassez, o paradigma da abundância afirma que os recursos são infinitos, desde que sejamos inclusivos, colaborativos e que permitamos que esse fluxo passe por nós.

O paradigma da abundância
O paradigma da abundância, em mais uma imagem surrupiada da Laboriosa89

Abundância, então, nada mais é do que ter acesso ao que precisa, quando precisa, sem a necessidade de estocar. Tem pra todo mundo, sim.


Referências