Dias Gomes: ditadura, subversão e pornografia

Após ter a peça liberada pela ditadura, Dias Gomes descobre que O berço do herói não entraria em cartaz por uma proibição explícita do governador da Guanabara, Carlos Lacerda. De acordo com Lacerda, a peça que serviu de base para Roque Santeiro era pornográfica e subversiva.

Dias depois do fato, uma nota do secretário de Segurança, coronel Gustavo Borges, foi publicada em um dos jornais da época. Dos seis tópicos que compões a justificativa para a proibição, destaca-se quão atual o segundo deles se mantém:

Pretendem, pois, autor [Dias Gomes] e empresário, usar a polícia como fato de propaganda gratuita nos jornais, induzidos sutilmente a publicarem a notícia pré-fabricada de interdição de uma pseudo-obra de arte visando a demonstrar que o “terrorismo intelectual” vem sendo aplicado pelas autoridades responsáveis pela ordem pública e pela preservação dos bons costumes. A verdade, porém, é estarem esses senhores engajados na implantação de uma “ditadura cultural”, através do abuso de liberdade democrática […]

E abaixo, uma entrevista com o autor no programa Roda Viva, em junho de 1995:

Santos Dumont, João Gilberto e Rio de Janeiro

Decolar e pousar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, é tão lindo que transformei uma gravação de quase 14 minutos, feita com meu celular, neste pequeno vídeo. Na trilha, Vivo sonhando, a música de Tom Jobim que fecha o disco Getz/Gilberto, de 1964. 🖤

Praia boa é praia rica

Marca de regata, aquela senhora toda rosada. Gente de bermuda e camiseta na água. Espetinho de camarão e salgado suspeito. Um ou outro arrombado com música alta. Vira-lata correndo na areia, bóia e colchão inflável no mar. Criança perdida e senhores de 70 anos pegando jacaré. É aqui que mora a brasilidade.

Jurerê Internacional, Leblon e a Praia Brava de Camboriú provam que a relação é diretamente proporcional: quanto mais gente sarada e bonita tiver uma praia, mais cafona e monotemática ela é.

Praia boa é praia com a fauna rica, praia com jeito de Mata Atlântica. O resto é colônia de férias de estudande de faculdade particular.

Febre de bola

Em Fever Pitch (Febre de bola), Nick Hornby exalta não somente o seu amor pelo Arsenal, mas também pelo futebol como um todo. E é a passagem abaixo, já no finalzinho do livro, que talvez explique um pouco da emoção que esse esporte consegue prover:

None of the moments that people describe as the best in their lives seem analogous to me. Childbirth must be extraordinarily moving, but it doesn’t really have the crucial surprise element, and in any case lasts too long; the fulfillment of personal ambition — promotions, awards, what have you — doesn’t have the last-minute time factor, nor the element of powerlessness that I felt that night. And what else is there that can possibly provide suddenness? A huge pools win, maybe, but the gaining of large sums of money affects a different part of the psyche altogether, and has none of the communal ecstasy of football.

There is then, literally, nothing to describe it. I have exhausted all the available options. I can recall nothing else that I have coveted for two decades (what else is there that can reasonably be coveted for that long?), nor can I recall anything else that I have desired as both man and boy. So please, be tolerant of those who describe a sporting moment as their best ever. We do not lack imagination, nor have we had sad and barren lives; it is just that real life is paler, duller, and contains less potential for unexpected delirium.

E na tradução de Christian Schwartz, na edição da Companhia das Letras:

Nada do que as pessoas descrevem como os melhores momentos da vida me parece comparável. O nascimento de uma criança deve ser extraordinariamente emocionante, mas não tem, na verdade, o elemento surpresa, tão crucial, e de qualquer maneira dura tempo demais; atingir um objetivo pessoal — uma promoção, um prêmio, seja lá o que for — não acontece no último minuto, nem carrega a sensação de impotência que eu tinha naquela noite. E que outra coisa existe por aí que seja tão repentina? Acertar o prêmio acumulado na loteria, talvez, mas ganhar uma bolada em dinheiro mexe com uma parte totalmente diferente da psique, e falta, nesse caso, o êxtase coletivo do futebol.

Não há nada, portanto, capaz de descrever como é. Exauri todas as possibilidades. Não consigo lembrar mais nada que eu tenha cobiçado por duas décadas (que outra coisa alguém cobiçaria por tanto tempo?), tampouco algo mais que eu tenha desejado tanto em criança como na idade adulta. Então, por favor, sejam tolerantes com aqueles que reputam um momento esportivo como o melhor da vida. Não é que nos falte imaginação, nem que nossas vidas tenham sido tristes e improdutivas; é só que a vida real tem menos cor, é mais chata e contém potencial menor pra um delírio inesperado.

Aproveitando, mas que juiz pau no cu que é esse Michael Oliver.

Para compartilhar #2

O single de Come as You Are lançado pela Folha gratuitamente

Em 1992, o jornal Folha de S.Paulo presenteou os seus assinantes com um disco de uma banda até então desconhecida. Num domingo daquele ano, os fiéis leitores receberam junto com a edição do diário um vinil de um tal de Nirvana. E, veja bem, não era o Nevermind, disco lançado em setembro do ano anterior, que já estava bombando na gringa. Era “Come As You Are”, segundo single daquele álbum. O presentinho foi feito em vinil. EM VINIL.

Baita reportagem da Vice sobre uma história que nem eu, viciado da porra, sabia sobre a banda.

Neutralidade da rede garantida no Brasil?

De acordo com o NIC.br, o fim da neutralidade da rede nos Estados Unidos não deve gerar consequências ao Brasil. Resta garantir que o Marco Civil se mantenha de pé mesmo com tentativas de flexibilização sendo propostas pelas teles.

Para mais informações, recomendo também o site Direitos na Rede.

Quanto ganha um magistrado?

Um rapaz muito bacana extraiu os contracheques de todos os magistrados disponíveis no site do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e gerou um arquivo CSV que mostra que algun dos salários chegam a mais de R$ 100 mil.

Oswaldo Oliveira entregou a experiência

A gente recebe a vida e entrega a experiência. Essa que é a nossa relação com o universo.

E a gente vem programado pra viver uma experiência que vai gerar uma entrega pro universo única. Que só a gente, por ser único, vai ter aquela experiência de vida.

É meio como se o universo falasse assim: “Olha, tamo precisando de você. Você precisa ir lá pra, com essa configuração, viver tal coisa e incorporar esse aprendizado em nós”. O universo aprende através da gente.

A hora que você você tá deconexo disso, você tá desconexo do universo.

Conheci o Oswaldo através de uma oficina que ele deu em Curitiba, e compartilhei um pouco sobre o que aprendi com ele em dois momentos. As palavras e os conceitos às vezes demoram pra fazer sentido, tamanha a abstração necessária, mas espero que os textos ajudem a entender um pouco da ideia por trás desse empreender-se em rede:

Oswaldo, que faleceu há poucos dias, foi uma grande inspiração para diversas pessoas e projetos. Foi embora, mas entregou sua experiênca. E como ele disse em outra oportunidade, “e assim a vida segue, tendo como única constante a transformação”.

Para compartilhar, parte 1

Sharing is caring, na falta de uma boa tradução para o português. É importante que conteúdo de qualidade circule do lado de fora desse condomínio chamado Facebook.


Liberais além da economia

Joel Pinheiro da Fonseca é um economista e filósofo liberal que, diferente dos outros que se rotulam assim (alô, MBL), faz neste vídeo comentários esclarecedores sobre o que é ser liberal além do espectro econômico. O seu canal no YouTube também está recheado de conteúdos interessantes sobre o cenário político atual.

Cota parlamentar

A galera da Operação Serenata de Amor explica, neste texto, um pouco mais sobre a cota parlamentar, por que ela é necessária e, o mais importante, por que ela precisa ser fiscalizada de perto a fim de evitar o mau uso do dinheiro público.

Uma reportagem do Fantástico explicou como a Serenata de Amor funciona. E se você se interessa por código, não deixe de visitar o repositório do grupo no GitHub.

Vida e obra de mim mesmo

Há amigos que dizem que nada melhor para um humorista do que viver em uma época ridícula. Eu penso o contrário. Nada pior do que ter a competição com a realidade. É impossível competir quando há uma eleição para presidente em que uma das opções pode ser o Doctor Rey.

O Almanaque Brasil entrevistou Ricardo Coimbra, cartunista e ser negativo, sobre política, influências e sua facilidade em passar pro papel os piores lados da esquerda e da direita.

Por sinal, o site do Almanaque Brasil, feito com o WordPress.com, foi uma boa descoberta!

Kurt Cobain e Dave Grohl em pequeno show acústico

Que coisa maravilhosa. O vídeo original foi derrubado, mas já está disponível em alguns outros links.

Antigos direitos no Brasil atual

Em seu livro O povo brasileiro, Darcy Ribeiro explica sobre a criação de nosso país, nosso processo sociocultural e como os mais variados brasileiros, do caboclo ao sertanejo, ainda dão forma ao povo que vive aqui.

Ribeiro também faz questão de exemplificar, em diversos momentos, como ações tomadas séculos atrás ainda repercutem negativamente em nossa sociedade. E principalmente, como aquilo que antigamente víamos como “direito” segue sendo clamado como tal até hoje.


José Honório Rodrigues cita uma quadra, cantada em 1823 pelos insurgentes de Pernambuco, que opunha os marinheiros (reinóis) e caiados (brancos) aos pardos e pretos:

Marinheiros e caiados
Todos devem se acabar
Porque os pardos e pretos
O país hão de habitar

O país já habitavam; sua aspiração era mandar. Era refazer a ordenação social segundo seu próprio projeto. É fácil imaginar e está bem documentado o pavor pânico provocado por essas expressões de insurgência dos pretos e dos pardos, ensejadas por sua participação nas lutas políticas. As classes dominantes viam nela a ameaça iminente de uma “guerra de castas” violenta e terrível pelo ódio secularmente contido que faria explodir na forma de convulsões sociais sangrentas.

E, a seus olhos, tão mais terrível porque qualquer debate ou redefinição da ordem vigente conduziria, fatalmente, a colocar em questão as duas constrições fundamentais: a propriedade fundiária e a escravidão.