Playa del Carmen é top? É top sim

Playa foi a razão de eu ter ido ao México. Foi lá que encontrei meus amigos da firma, e de lá trabalhamos uma semana juntos. Quase todos voltaram; ficamos Charlie, que foi pra Cuba alguns dias depois, e eu, que queria aproveitar pra conhecer um pouco mais do país.

Por causa do seu tamanho, custo de vida razoável e uma localização privilegiada, bem próxima ao aeroporto de Cancun, Playa atraiu muitos gringos. Enquanto alguns americanos usam o México como colônia de férias durante o inverno nos EUA, outros extrangeiros resolveram ficar para sempre na península de Yucatan. Hoje, Playa possui quase 150 mil habitantes e cresce rapidamente devido aos grandes empreendimentos, maravilhosas praias e algumas lojas de gosto duvidoso.

O contraste entre o calçadão da quinta avenida – centenas de bares, restaurantes e lojas de souvenirs – e o resto da cidade é gritante, e te faz perceber como um local pode mudar tanto em questão de duas ou três quadras. Quando não se tem a oportunidade de ficar mais tempo por ali, acaba-se perdendo de conhecer o dia-a-dia mais relaxado de uma cidade que, se olhada da quinta avenida, parece viver apenas para o turismo frenético.

La Bodeguita del Medio, um restaurante cubano em terras mexicanas
La Bodeguita del Medio, um restaurante cubano em terras mexicanas

Tentando criar uma rotina

Pra mim, que iria trabalhar viajando, ficar poucos dias na cidade não era uma opção. Com o trabalho consumindo boa parte do tempo, pular de cidade em cidade é pedir para cansar em instantes. Criei, então, uma pequena rotina: passear pela praia e pela cidade, tentar ser profissionalmente útil e achar o melhor ceviche da região.

O Nest, um espaço de coworking bem bacana, me ajudou a ser profissionalmente útil. Com uma internet confiável, dois Schnauzers engraçados, guloseimas à vontade e a duas quadras do mar, é de lá que a gringaiada vai trampar quando não quer se aventurar pelos cafés que, apesar de bons, muitas vezes não te garantem a conexão que o trabalho remoto talvez lhe exija no momento.

Locomover-se por Playa é tranquilo; as ruas pulam de duas em duas (ruas 36, 38 e 40) enquanto as avenidas de cinco em cinco. Alugar uma bicicleta é então a melhor forma de conhecer boa parte da cidade. Além disso, pode-se também facilmente encontrar motos e carros, geralmente usados para trajetos que envolvam conhecer regiões próximas como as ruínas de Chichen Itza e Cobá, Akumal, Tulum e os inúmeros cenotes.

Vendedor em Chichén Itzá
Huevos motuleños, um prato tipicamente yucateco
Huevos motuleños, um prato tipicamente yucateco

Na três semanas que fiquei por lá, um dos meus lugares favoritos foi o complexo de esportes Mario Villanueva Madrid, na décima avenida. que conta com um grande campo de futebol, uma pista de atletismo e quadras de basquete e tênis. Lá, toda a noite é possível correr, fazer aulas de dança, entrar pra um grupo de crossfiteiros ou até mesmo somente sentar nas arquibancadas para acompanhar toda a movimentação.

Playa é infestada de comida boa, para os mais variados bolsos, então é possível não repetir restaurantes se assim seu coração mandar. Foi lá também que descobri que no México se fazem sucos enormes por quantidades irrisórias de dinheiro, e que comer feijão e todo o tipo de gordura no café da manhã é a lei.

Jurerê Internacional é logo ali

Pra quem tem o costume de aceitar drogas de estranhos em países com um certo renome no assunto, Playa não vai decepcionar. Para isso, basta riscar duas das três opções abaixo:

  • Ter cara de turista
  • Estar em grupo
  • Estar sozinho

Ter muita cara de drogado pode também ajudar, mas não acho que seja pré-requisito. A pressão é grande, especialmente perto das baladas, então é bom ficar ligado: quando vir alguém de longe a lhe encarar, já vá preparando o seu gracias que a oferta do pó colombiano vem aí.

Algumas praias também tem os famigerados beach clubs, que nada mais são do que espreguiçadeiras e guarda-sóis todos iguais que você pode alugar pra ficar tranquilão na selfie. Você pode também só sentar na areia, de graça, mas talvez você pareça meio pobre.

Se você não liga, sem problemas: a rede de conveniências Oxxo vende isopores baratinhos pra você entupir de gelo e cerveja e ser feliz. Porém, se locais com muita gente e música meia-boca não lhe interessam, recomendo evitar o Mamitas e os demais beach clubs, todos bem no miolo de Playa. Tanto ao norte quanto ao sul você poderá encontrar praias bem bacanas e mais tranquilas pra aproveitar.


Dicas gerais

Dólares ou pesos mexicanos?

Se você possuir dólares, leve esses dólares. Veja a cotação do peso mexicano no Brasil, pois dependendo do estabelecimento, cada dólar em Playa pode valer algo entre 16 e 20 pesos. Creio que quase sempre será um negócio melhor usar as verdinhas americanas.

Como se locomover

IMG_3461

Playa, a partir da 30ª avenida, é um pouco intensa no trânsito. Dela pra baixo, no entanto, é fácil se locomover seja a pé, com uma bicicleta ou uma scooter. Alugar bicicleta é um pouco caro (US$ 10 / dia), então talvez valha a pena até mesmo comprar uma se você for ficar mais tempo. É possível comprar bikes novas por uns 1000 pesos; depois, dá pra vender rapidinho em um dos grupos de classificados de Playa no Facebook.

Carros e motos pequenas são alugados facilmente (a partir de US$ 20 o dia) e podem ser usados para passear pelas cidades vizinhas.

Você pode também usar os colectivos, pequenas vans que te levam a qualquer lugar por um valor bem justo.

Ao redor

Cozumel, Akumal, Yal Ku, Puerto Morelos, Tulum, os cenotes e as ruínas de Chichen Itza e Cobá são alguns dos inúmeros lugares que você pode conhecer em volta.

Você pode encontrar mais outras dicas no Travel Yucatan e no Everything Playa del Carmen, dois sites recheados de informações sobre a região.

Comidas

A quinta e a décima avenidas tem um pouco de tudo e você não vai ter dificuldades em encontrar algo que lhe agrade. Porém, se quiser preços um pouco mais tranquilos, é melhor comer a partir da 15ª, onde começam a aparecer os restaurantes mais locais. A 30ª avenida, inclusive, possui um bom número de opções.

Trabalhando

Se você procura um coworking, o mais central deles é o Nest. Apesar de um pouco caro, pode ser ideal para viajantes que precisem de uma rotina. Café e algumas comidinhas à vontade podem ajudar a compensar o preço.

O café ChouChou também é uma ótima opção. Além de muito bacana, o café tem bons pontos de energia para conectar seu computador.

Há mais algumas boas dicas de lugares para trabalhar no Workfrom.

Comprando lembranças

Quase todos os diferentes tipos de artesanato chegam na cidade. Dos alebrijes de Oaxaca, passando pela cultura têxtil de Chiapas aos trabalhos em obsidiana feitos perto de Teotihuacan, tudo pode ser comprado diretamente em Playa.

A quinta avenida é repleta de casas de souvenirs. Fuja das grandes lojas, as com o preço etiquetado, e tente encontrar aquelas que vão lhe permitir pechinchar.

Apanhado de links

Abaixo, uma lista de referências que me auxiliaram na viagem. Espero que ajudem você também.

Wave goodbye

Meu primeiro contato com o Soundgarden foi numa locadora de games, bem pertinho da casa dos meus pais, há mais de vinte anos. Dono de um Mega Drive, eu ia até a locadora na esperança de que o novo Road Rash, lançado para o antigo 3DO, já estivesse disponível.

Não demorou muito para o CD aparecer por lá e então ficar maravilhado com a abertura do jogo:

Encontrei Rusty Cage, enfim, na coletânea A-Sides do Soundgarden, um dos primeiros CDs que comprei na vida. O disco me apresentou não só para uma nova banda, mas para uma banda que esteve em constante evolução durante sua existência. Influenciado por uma porrada de gente – Beatles, Zeppelin, Black Sabbath, Stones, Ramones, Budgie – o Soundgarden me ajudou a dar valor para muitas bandas que mereciam ser ouvidas de verdade. Mas foi só depois, com Cornell, que entendi a real amplitude disso.

My favorite Soundgarden record is the last one. We weren’t a band who ended up strangling each other or fighting with lawyers. We had critical success, we had commercial success, we made records I think are timeless, and we were together for a long time. I’m not so greedy that I want more of that.

Chris Cornell

Não foi fácil absorver Euphoria Mourning, seu primeiro disco solo, e torci o nariz quando assisti ao clipe de Can’t Change Me ainda na MTV. Talvez por ainda estar muito travado na adolescência, foi daqueles discos que aprendi a gostar aos poucos, ao mesmo tempo que começava a compreender quão versátil e criativo Cornell fora em sua carreira.

Wave Goodbye, nome que Cornell deu à música que ele fez para Jeff Buckley, é hoje também o nome que uso para homenageá-lo. Montei duas listas, uma em áudio e outra em vídeo, com algumas das canções que me marcaram durante década e meia de reverência. Composições próprias, apresentações ao vivo e covers impecáveis constituem apenas uma pequena fração de como Cornell foi influenciado e segue influenciando tanta gente.

Não o vi ao vivo, nem solo nem com o Soundgarden, e isso me entristece um pouco. Cornell faria 53 anos hoje. Baita cantor, incrível compositor e um dos poucos heróis musicais que tive. Fica o meu agradecimento.

Brazil ilustrado

Folhear de um dispositivo móvel as páginas amarelecidas da obra editada no século 16 de Hans Staden – viajante alemão que esteve no Brasil por duas vezes combatendo nas capitanias de Pernambuco e de São Vicente – é uma aventura que, até há pouco tempo, era inimaginável. Pois bem. Esse livro e outras 2.999 obras que José Mindlin colecionou dos 15 aos 95 anos de idade podem ser apreciados graças à nova plataforma criada pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP.

Fora a experiência de Hans Staden, também disponível em Português, há digitalizações da obra de Padre Anchieta, que tentou documentar a língua falada pelo Brasil indígena, além de antigos almanaques e ilustrações.

Veja mais informações no jornal da USP ou visite diretamente a biblioteca digital.

México: um mapa com dicas de amigos e amigas para se conhecer o país

O mapa abaixo lista algumas dicas sobre lugares para se conhecer no México. A maior parte desses lugares fica na península de Yucatán, então a concentração de praias, ilhas e cenotes é grande. Clicando nos pontos, é possível ver links que levam a sites que falam da cidade ou do ponto turístico em questão.

Vou tentar manter o mapa em constante atualização. Assim ele fica disponível como referência para quem, como eu, tá querendo conhecer o país.

Posts relacionados

Aqui, vou tentar listar textos que escrevi sobre os lugares por onde passei. Espero que eles ajudem. 🙂

“Colocando de forma mais clara: o desejo por segurança e o sentimento de insegurança são a mesma coisa. Prender a respiração é perder a respiração. Uma sociedade baseada na busca da segurança não passa de uma competição de prender a respiração, na qual todas as pessoas estão tão tensas como um tambor e tão roxas como uma beterraba.

Alan Watts, em The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety

Virada Cultural: A vocação de SP para erguer muros separando ricos e pobres

Descobertas musicais de 2016 ou: eu já fiz listas assim antes, mas nunca as publiquei

Meu amigo Michel, arrisco dizer uns dez anos atrás, gravou um CD bastante peculiar. Por talvez obra do álcool ou apenas graças a um gosto doido pela mistura de elementos que não foram feitos para andar de mão dada – o que poderia ser facilmente comprovado em nossas experiências culinárias, o CD-R da Sony continha uma seleção tão ímpar que fica até difícil de descrever: começando com música gauchesca, a lista passava por um funk proibidão, seguido de uma piada do Ari Toledo e alguma música do Nightwish apenas reconhecida por fãs de Nightwish. Tudo isso em sequência, sem vergonha de ser feliz. Era como se, a cada faixa nova, você fosse transportado para um novo universo ainda mais bizarro que o anterior.

Inspirado por essa obra vanguardista, resolvi então compartilhar as belas descobertas feitas neste belo ano, que incluem músicas registradas graças ao Shazam, algumas recomendações do próprio Spotify e dicas de amigos e amigas. A playlist abaixo talvez soe meio amigo-vira-DJ-no-fim-da-festa, mas garanto que é de coração.

A alma encantadora das ruas

A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas.

João do Rio, como ficou conhecido João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi um escritor brasileiro conhecido pelos contos, concentrados nos primeiros anos de 1900, que tratavam da sociedade e, especialmente, do Rio de Janeiro e seus cidadãos.

Em A alma encantadora das ruas, o autor extrai do Rio de Janeiro do início do século XX aquilo que representa o seu cerne: a rua e seus personagens. O autor a glorifica e descreve esse universo – mercadores a gritar, pintores e estivadores, vagabundos e ladrões, os chineses e seu ópio, prostitutas e pedintes –  de uma forma tão atual que, não fossem os parágrafos rebuscados, seria possível imaginar seus textos sendo escritos dias atrás.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da multidão, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes.

O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.