Wave goodbye

Meu primeiro contato com o Soundgarden foi numa locadora de games, bem pertinho da casa dos meus pais, há mais de vinte anos. Dono de um Mega Drive, eu ia até a locadora na esperança de que o novo Road Rash, lançado para o antigo 3DO, já estivesse disponível.

Não demorou muito para o CD aparecer por lá e então ficar maravilhado com a abertura do jogo:

Encontrei Rusty Cage, enfim, na coletânea A-Sides do Soundgarden, um dos primeiros CDs que comprei na vida. O disco me apresentou não só para uma nova banda, mas para uma banda que esteve em constante evolução durante sua existência. Influenciado por uma porrada de gente – Beatles, Zeppelin, Black Sabbath, Stones, Ramones, Budgie – o Soundgarden me ajudou a dar valor para muitas bandas que mereciam ser ouvidas de verdade. Mas foi só depois, com Cornell, que entendi a real amplitude disso.

My favorite Soundgarden record is the last one. We weren’t a band who ended up strangling each other or fighting with lawyers. We had critical success, we had commercial success, we made records I think are timeless, and we were together for a long time. I’m not so greedy that I want more of that.

Chris Cornell

Não foi fácil absorver Euphoria Mourning, seu primeiro disco solo, e torci o nariz quando assisti ao clipe de Can’t Change Me ainda na MTV. Talvez por ainda estar muito travado na adolescência, foi daqueles discos que aprendi a gostar aos poucos, ao mesmo tempo que começava a compreender quão versátil e criativo Cornell fora em sua carreira.

Wave Goodbye, nome que Cornell deu à música que ele fez para Jeff Buckley, é hoje também o nome que uso para homenageá-lo. Montei duas listas, uma em áudio e outra em vídeo, com algumas das canções que me marcaram durante década e meia de reverência. Composições próprias, apresentações ao vivo e covers impecáveis constituem apenas uma pequena fração de como Cornell foi influenciado e segue influenciando tanta gente.

Não o vi ao vivo, nem solo nem com o Soundgarden, e isso me entristece um pouco. Cornell faria 53 anos hoje. Baita cantor, incrível compositor e um dos poucos heróis musicais que tive. Fica o meu agradecimento.

Brazil ilustrado

Folhear de um dispositivo móvel as páginas amarelecidas da obra editada no século 16 de Hans Staden – viajante alemão que esteve no Brasil por duas vezes combatendo nas capitanias de Pernambuco e de São Vicente – é uma aventura que, até há pouco tempo, era inimaginável. Pois bem. Esse livro e outras 2.999 obras que José Mindlin colecionou dos 15 aos 95 anos de idade podem ser apreciados graças à nova plataforma criada pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP.

Fora a experiência de Hans Staden, também disponível em Português, há digitalizações da obra de Padre Anchieta, que tentou documentar a língua falada pelo Brasil indígena, além de antigos almanaques e ilustrações.

Veja mais informações no jornal da USP ou visite diretamente a biblioteca digital.

México: um mapa com dicas de amigos e amigas para se conhecer o país

O mapa abaixo lista algumas dicas sobre lugares para se conhecer no México. A maior parte desses lugares fica na península de Yucatán, então a concentração de praias, ilhas e cenotes é grande. Clicando nos pontos, é possível ver links que levam a sites que falam da cidade ou do ponto turístico em questão.

Vou tentar manter o mapa em constante atualização. Assim ele fica disponível como referência para quem, como eu, tá querendo conhecer o país.

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Aqui, vou tentar listar textos que escrevi sobre os lugares por onde passei. Espero que eles ajudem. 🙂

“Colocando de forma mais clara: o desejo por segurança e o sentimento de insegurança são a mesma coisa. Prender a respiração é perder a respiração. Uma sociedade baseada na busca da segurança não passa de uma competição de prender a respiração, na qual todas as pessoas estão tão tensas como um tambor e tão roxas como uma beterraba.

Alan Watts, em The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety

Virada Cultural: A vocação de SP para erguer muros separando ricos e pobres

Descobertas musicais de 2016 ou: eu já fiz listas assim antes, mas nunca as publiquei

Meu amigo Michel, arrisco dizer uns dez anos atrás, gravou um CD bastante peculiar. Por talvez obra do álcool ou apenas graças a um gosto doido pela mistura de elementos que não foram feitos para andar de mão dada – o que poderia ser facilmente comprovado em nossas experiências culinárias, o CD-R da Sony continha uma seleção tão ímpar que fica até difícil de descrever: começando com música gauchesca, a lista passava por um funk proibidão, seguido de uma piada do Ari Toledo e alguma música do Nightwish apenas reconhecida por fãs de Nightwish. Tudo isso em sequência, sem vergonha de ser feliz. Era como se, a cada faixa nova, você fosse transportado para um novo universo ainda mais bizarro que o anterior.

Inspirado por essa obra vanguardista, resolvi então compartilhar as belas descobertas feitas neste belo ano, que incluem músicas registradas graças ao Shazam, algumas recomendações do próprio Spotify e dicas de amigos e amigas. A playlist abaixo talvez soe meio amigo-vira-DJ-no-fim-da-festa, mas garanto que é de coração.

A alma encantadora das ruas

A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas.

João do Rio, como ficou conhecido João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi um escritor brasileiro conhecido pelos contos, concentrados nos primeiros anos de 1900, que tratavam da sociedade e, especialmente, do Rio de Janeiro e seus cidadãos.

Em A alma encantadora das ruas, o autor extrai do Rio de Janeiro do início do século XX aquilo que representa o seu cerne: a rua e seus personagens. O autor a glorifica e descreve esse universo – mercadores a gritar, pintores e estivadores, vagabundos e ladrões, os chineses e seu ópio, prostitutas e pedintes –  de uma forma tão atual que, não fossem os parágrafos rebuscados, seria possível imaginar seus textos sendo escritos dias atrás.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da multidão, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes.

O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.