Há algumas semanas, o algortimo do YouTube estava me perseguindo com uma série de vídeos sobre clássicos da música brasileira – pelo menos de acordo com Greg Caz, um DJ nova-iorquino viciado na nossa música. Salvei para assistir mais tarde porque, apesar de reconhecer alguns discos, eu tinha certeza que alguma coisa nova apareceria pra ouvir.
Foi quando Drácula I Love You apareceu. Em menos de uma hora, eu tinha 30 abas abertas no meu navegador pra entender quem era Tuca, o que tinha acontecido, com quem ela tinha tocado, e por que o último disco dessa brasileira quase desconhecida é vendido por mais de R$ 10 mil no Discogs.


Tuca, ou Valeniza Zagni da Silva, saiu do Brasil em 1969 rumo à Europa, insatisfeita com os rumos políticos do país e com a ideia de se libertar do rótulo de gorda simpática que recebera. Passou por Espanha e Itália, até desembarcar na França onde encantou Françoise Hardy durante um show em Paris. Ficaram tão próximas a ponto de Tuca ter sido o motor por trás do disco mais famoso de Hardy, La Question, de 1971 – exceto por Doigts, da própria Hardy, e de Rêve, uma versão de Taiguara, todas as músicas são da brasileira.
Drácula I Love You foi pensado tanto por Tuca como por sua companheira na época, a artista Jeannette Priolli, que participou do processo de composição junto com o também brasileiro Mário de Castro Neto. Priolli também foi a responsável pelo conceito e pela capa original do disco, censurada pela Som Livre. Chamada Reflexão, a pintura que foi o estopim pra concepção do disco foi perdida num incêndio no ateliê da artista em 2019, acidente que vitimou sua filha, Anna, de 23 anos.
Fruto de um grande imbróglio, o disco nunca foi relançado oficialmente.

E pensando agora, 30 abas depois, talvez o que tenha mais me chamado a atenção foi justamente a capa imposta pela Som Livre, que num ensaio às pressas desfigurou e distorceu o que o trio, mas principalmente Tuca e Jeannette, haviam concebido através do amor. A artista, que saiu do Brasil pra se livrar de um rótulo cruel e limitante, voltou lançar um disco no país que mais uma vez julgou quem ela havia se tornado.
Quatro anos depois do lançamento de Drácula I Love You, Tuca morre em decorrência de parada cardíaca causada por uma dieta extrema que a fez perder 40 quilos em um mês. Ela tinha apenas 33 anos.
Que Tuca tenha o reconhecimento que tanto merece.
Para quem quiser saber mais, o artigo Os três tesouros franceses de Tuca, uma gigante brasileira é um bonito resumo da obra da artista. Por fim, foi só depois assistir a alguns vídeos que um detalhe me chamou a atenção: Tuca está naquela foto clássica na casa de Vinícius de Moraes.

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