Pesquisa com os participantes da manifestação do dia 12 de abril de 2015

No Facebook, tem circulado uma pesquisa feita pelo professor Pablo Ortellado, da USP, e pela professora Esther Solano, da UNIFESP, sobre o perfil dos manifestantes que participaram da marcha de 12 de abril de 2015 que, queira ou não, foi marcada por basicamente uma bandeira: o pedido de impeachment da presidente.

É meio assustador verificar como os dados refletem as fotos, os vídeos e as declarações dos manifestantes divulgadas na mídia: dos entrevistados, 77% são brancos e quase metade das pessoas presentes no protesto possui renda superior a R$ 7.880. Acho vergonhoso ver formadores de opinião usando a expressão “elite branca” meio que pra tudo, mas há, talvez, uma razão para isso.

Mais perturbador ainda, quem sabe, é ver a relação das pessoas com os meios de informação. Dois extremos como Paulo Henrique Amorim e Reinaldo Azevedo aparecem com grandes índices de confiança, sendo que os dois só perdem para a diva do cidadão e da cidadã de bem, Rachel Sheherazade. Além disso, mais da metade dos entrevistados diz que se informa em algum nível sobre política via WhatsApp e 47,3% se informam muito pelo Facebook, o que não seria um problema se boa parte das frases absurdas tomadas como verdade pelos entrevistados não tenham se originado em ambas as ferramentas.

A desinformação – ou melhor, a nossa falta de vontade em confirmar fatos e fontes – é a grande vitoriosa. Enfraquece o debate, empobrece os argumentos e, mais do que tudo, nos transforma em papagaios de pirata. Afinal, se hoje se afirma que o bolsa-família “só financia preguiçoso”, entre outras sandices, talvez seja o momento de nos apropriarmos mais da política.

E como disse Bruno Torturra, do Fluxo, em seu perfil no Facebook:

A mídia começa a ser tão responsável quanto vítima nessa altura. Enquanto sofre financeiramente, demite em massa e perde circulação, pode e deve seguir batendo no governo. Que siga à vontade para opinar, pautar e excretar regras em editoriais como é de sua função e direito.

Mas, pela madrugada, e em nome da sua própria subsistência… que ajude a reparar o déficit de educação política com mais reportagem, inteligência, isonomia, apuro e, principalmente, um pouco de cuidado com a frágil sanidade pública.

Porque ao apostar nessa narrativa expiatória da política, a imprensa está investindo em um leitor que, no fundo, não o é.

12 de abril, remodelado

Aproveitei o interesse no assunto e, como pequena distração, recriei a página que foi feita para hospedar os dados da pesquisa. Meu objetivo foi tentar torná-la um pouco mais didática e amigável, fazendo uso de ferramentas abertas de desenvolvimento.

Criei e hospedei a página dentro do GitHub. O código do repositório, batizado de 12deabril, está disponível também.

Basta

Nascido no interior do Paraná, numa cidade que já fora uma baita fazenda, não é difícil passar um tempo sem ver algumas atitudes deploráveis oriundas de famílias que já tiveram um bom número de hectares nas mãos. De fazer piadas com preto e pobre ao jogar ovo em mendigo, cidades como a minha terão, por mais algumas boas gerações, esse ranço provinciano. São coisas que crescem contigo e, não havendo no seu caminho uma puxada de orelha, uma repreensão, um debate ou uma boa mijada em público, podem morrer contigo. E foi lá, em 1998, que vi pela primeira vez adesivos em picapes e caminhonetes com uma mão com quatro dedos e o símbolo de proibido em volta, algo que reparo até hoje, ainda que não mais apenas em carros de filhos de fazendeiros e gente com muita grana. Pra quem acha que o ódio nasceu ontem, taí uma boa prova que não.

Muito se fala das ridículas faixas pedindo intervenção militar e da suástica pintada em uma delas, em menor quantidade se comenta os xingamentos a uma mulher (afinal, fora a mãe, a namorada e em algumas exceções a irmã, toda mulher é puta), mas pouquíssimo se percebeu no que talvez seja um perfeito indicador do nosso descompasso social: o preconceito podre revelado em milhares de pessoas comuns, cidadãos de bem, mulheres, homens, crianças e até mesmo parlamentares usando uma camiseta escrito BASTA com apenas quatro dedos.

Triste perceber como, em todos os casos, o esvaziamento de sentido virou eufemismo pra intolerância. É cruel, vergonhoso e repugnante. E com essa gente eu não protesto nem fodendo.

Baderneiros, vândalos, bandidos mascarados e demais desqualificações

Ilustração de Marco Marilungo sobre a "Manifestação dos Indignados" que ocorreu há dois anos, em Roma. Lá, os "baderneiros encapuzados" também se fizeram presentes.
Ilustração de Marco Marilungo sobre a “Manifestação dos Indignados” que ocorreu há dois anos, em Roma. Vejam só que incrível coincidência.

Enfim, o posterior “avacalhamento” público, distorção e “manipulação” das manifestações pela mídia (incluindo governo) é, certamente, a única regra que se deve tomar como verdadeira ao se expressar nas ruas. A desqualificação de greves, ocupações, manifestos e claro, protestos violentos ou não, é a principal e mais eficaz arma de desmobilização e desarticulação de qualquer manifestação, independente da causa e do número de manifestantes.

(…)

50 mil na rua e só se fala em “vandalismo e depredação”.

Seja pelas muitas testemunhas que viram com receio a ação direta dos black blocs mais como “ataque” do que como “revide” contra a repressão da polícia; ou, ainda mais importante, seja pelo evidente enfoque que todo o aparato midiático e governista já está dando na desqualificação das manifestações em “vandalismo”, buscando uma vitimização da polícia e do governo local, a ação violenta dos black blocs e simpatizantes está produzindo exatamente os resultados previstos no enredo tradicional: esvaziamento das pautas e a criminalização das manifestações radicais. E seria bastante ingênuo subestimar o poder de formação de consenso do aparelho midiático alinhado ao aparelho estatal aliado.

É fundamental lembrar que, tão ou mais importante do que o fato em si, é como o fato é interpretado e repercutido pelos agentes do seu tempo.

De Derrota em derrota