Wave goodbye

Meu primeiro contato com o Soundgarden foi numa locadora de games, bem pertinho da casa dos meus pais, há mais de vinte anos. Dono de um Mega Drive, eu ia até a locadora na esperança de que o novo Road Rash, lançado para o antigo 3DO, já estivesse disponível.

Não demorou muito para o CD aparecer por lá e então ficar maravilhado com a abertura do jogo:

Encontrei Rusty Cage, enfim, na coletânea A-Sides do Soundgarden, um dos primeiros CDs que comprei na vida. O disco me apresentou não só para uma nova banda, mas para uma banda que esteve em constante evolução durante sua existência. Influenciado por uma porrada de gente – Beatles, Zeppelin, Black Sabbath, Stones, Ramones, Budgie – o Soundgarden me ajudou a dar valor para muitas bandas que mereciam ser ouvidas de verdade. Mas foi só depois, com Cornell, que entendi a real amplitude disso.

My favorite Soundgarden record is the last one. We weren’t a band who ended up strangling each other or fighting with lawyers. We had critical success, we had commercial success, we made records I think are timeless, and we were together for a long time. I’m not so greedy that I want more of that.

Chris Cornell

Não foi fácil absorver Euphoria Mourning, seu primeiro disco solo, e torci o nariz quando assisti ao clipe de Can’t Change Me ainda na MTV. Talvez por ainda estar muito travado na adolescência, foi daqueles discos que aprendi a gostar aos poucos, ao mesmo tempo que começava a compreender quão versátil e criativo Cornell fora em sua carreira.

Wave Goodbye, nome que Cornell deu à música que ele fez para Jeff Buckley, é hoje também o nome que uso para homenageá-lo. Montei duas listas, uma em áudio e outra em vídeo, com algumas das canções que me marcaram durante década e meia de reverência. Composições próprias, apresentações ao vivo e covers impecáveis constituem apenas uma pequena fração de como Cornell foi influenciado e segue influenciando tanta gente.

Não o vi ao vivo, nem solo nem com o Soundgarden, e isso me entristece um pouco. Cornell faria 53 anos hoje. Baita cantor, incrível compositor e um dos poucos heróis musicais que tive. Fica o meu agradecimento.

White lemon days

Reza a lenda que, lá em 1995, o Pearl Jam comprou algumas horas de satélite (ou alguma parada do tipo, vai saber) para poder transmitir o que foi chamado de Self Pollution Radio, que nada mais era do que uma enorme programação de 4 horas e meia de música da mais alta qualidade. Para a empreitada, a banda resolveu chamar toda aquela maloqueirada de Seattle do final dos anos 80 / começo dos 90 pra conversar, atacar de DJ, trocar figurinhas, fazer um som e, como de costume dessa galerinha da música, usar as mais variadas drogas recreativas. Estavam lá Soundgarden, Mudhoney, o projeto paralelo Mad Season e até Krist Novoselic, ao vivo, para quem quisesse transmitir e quem quisesse ouvir. Classe A.

Aí que eu tinha um bootleg do Pearl Jam exatamente dessa transmissão, comprado naquele Mercado Livre pré-Thiago Tanaka. No final do CD, de lambuja, três músicas do Soundgarden, também do Self Pollution, incluindo uma demo de Fell on Black Days que, de tão diferente da versão original, parecia mais uma raridade qualquer do Budgie que de fato uma música composta pelo Chris Cornell. A surpresa foi encontrar apenas hoje, milênios depois, um registro em vídeo dessa pequena gema.

E o coração se enche mais uma vez de alegria.