Basta

Nascido no interior do Paraná, numa cidade que já fora uma baita fazenda, não é difícil passar um tempo sem ver algumas atitudes deploráveis oriundas de famílias que já tiveram um bom número de hectares nas mãos. De fazer piadas com preto e pobre ao jogar ovo em mendigo, cidades como a minha terão, por mais algumas boas gerações, esse ranço provinciano. São coisas que crescem contigo e, não havendo no seu caminho uma puxada de orelha, uma repreensão, um debate ou uma boa mijada em público, podem morrer contigo. E foi lá, em 1998, que vi pela primeira vez adesivos em picapes e caminhonetes com uma mão com quatro dedos e o símbolo de proibido em volta, algo que reparo até hoje, ainda que não mais apenas em carros de filhos de fazendeiros e gente com muita grana. Pra quem acha que o ódio nasceu ontem, taí uma boa prova que não.

Muito se fala das ridículas faixas pedindo intervenção militar e da suástica pintada em uma delas, em menor quantidade se comenta os xingamentos a uma mulher (afinal, fora a mãe, a namorada e em algumas exceções a irmã, toda mulher é puta), mas pouquíssimo se percebeu no que talvez seja um perfeito indicador do nosso descompasso social: o preconceito podre revelado em milhares de pessoas comuns, cidadãos de bem, mulheres, homens, crianças e até mesmo parlamentares usando uma camiseta escrito BASTA com apenas quatro dedos.

Triste perceber como, em todos os casos, o esvaziamento de sentido virou eufemismo pra intolerância. É cruel, vergonhoso e repugnante. E com essa gente eu não protesto nem fodendo.

“O ódio no Brasil”, por Leandro Karnal

Na minha experiência de professor, as salas de aula são divididas em grupos incomunicáveis e mutuamente hostis, que se agrupam por renda, forma física, melanina e opção [sic] sexual em grupos mais ou menos definidos na sala. Não se falam, não se gostam, riem quando um entra e debocham uns dos outros. Eis que um professor dá nota baixa e se torna um inimigo de todos. Imediatamente, as panelas de pressão rompem o lacre, e todos dão as mãos contra aquela besta do apocalipse que os prejudicou. E um emenda a fala do outro, porque agora eles tem o que odiar em comum. E tendo alguém a quem odiar em comum, nós somos todos irmãos. É muito difícil amar em comum. Nós tentamos, nós nos esforçamos, mas é difícil amar. Agora, odiar é uma delícia.

Manual de sobrevivência pós-eleições composto por apenas uma boa prática

Vai ser difícil, eu sei, mas se poupe, por um momento, das coisas preconceituosas: não leia mensagens de ódio, não propague mensagens de ódio. Porém, caso você tenha contato com essa doença que alguns insistem em chamar de liberdade de expressão, faça a sua parte e denuncie.