Empreender-se em rede, com Oswaldo Oliveira: introdução e o conceito de abundância

Parece importante refletir um pouco sobre pontos que hoje são tão incômodos: a falta de colaboração, a ausência de empatia e a constante necessidade por mais e mais. É difícil fugir desse ranço cultural, mas, a partir do momento em que você começa a encontrar tantas pessoas agindo de forma diferente daquelas que aprendemos por tantos anos, parece que um novo mundo se abre. Digo então que não foi por acaso que encontrei a Laboriosa89.

A casa, ideia de Oswaldo Oliveira, fica no número 89 da rua Laboriosa, em São Paulo, e tem como lema ser “livre, abundante, auto-gerida e baseada na confiança”. O conceito parece difícil de explicar, especialmente para os que vem do mundo corporativo. Não há chefes, diretoria ou hierarquia qualquer, somente a ideia de que todos podem ser responsáveis, havendo apenas uma premissa: é possível fazer o que quiser, desde que você não impeça os outros de agir da mesma forma. Também não há curadoria, análise prévia ou decisão para o uso da Laboriosa89. Ademais, com custos abertos e a contribuição totalmente voluntária, pagam aqueles que querem manter o espaço em pleno funcionamento, sendo que ninguém lucra com isso. Apenas a casa e o todo.

Usando como base seus experimentos, Oswaldo criou o Empreender-se em rede, que também funciona como grupo aberto no Facebook. A intensa conversa realizada n’A Casa é Sua durante os dias 11 e 12 de julho abordou quatro frentes: o paradigma da escassez e o paradigma da abundância, organização em rede, identificação das necessidades da rede, como incluir-se em rede e como remunerar-se por ela, temas que pretendo tratar separadamente aqui. Dentro de todos os itens, palavras e expressões como autoconhecimento, intenção de vida, sistema, experiências, evolução e reconhecimento de valor foram recorrentes, mostrando que, para se estar em rede, antes de tudo é preciso entender quem você é e que espaço ocupa neste mundo.

Antes de tudo

Havia um rascunho de texto aqui em que eu citava um capítulo do livro You Are Not So Smart, de David McRaney, onde o autor explica um pouco sobre O jogo dos bens públicos e também sobre a tragédia dos comuns, ideia oriunda de um artigo homônimo de 1968, escrito por Garrett Hardin, que sugeria que nós não somos bons colaboradores.

Deu ruim

No livro, McRaney faz o paralelo com um lago recheado de peixes, cujo paradeiro só você e outras três pessoas conhecem. Todos concordam em apenas retirar os peixes necessários para a sua alimentação, mantendo assim o lago e seu ecossistema. Porém, você percebe que alguém começou a retirar mais que precisa e está vendendo a sobra dos peixes.

Caso você comece a pescar mais, você também poderá comprar uma vara melhor, quiçá um barco. Talvez você possa se juntar aos outros e lutar contra o trapaceiro. Talvez todos começarão a pescar quantos peixes der na telha. Talvez você possa apenas contar para o resto do mundo sobre o lago. Todos esses cenários provavelmente levarão à destruição do bem comum. Se você nada fizer, o lago continuará sustentando você e os outros dois, mas o trapaceiro vencerá. É impossível não sentir raiva frente a situações injustas.

Em condições como esta do lago imaginário, em um esforço para não ficar pra trás, todos perdem. Uma grande refeição de feriado, por exemplo, pode se tornar um desastre se todos resolverem entupir o prato de comida. Porém, se cada um apenas pegar o necessário, todos ganham. A tragédia em retirar demais do bem comum é que, após certo tempo, ele se esgota apenas com uma mínima quantidade de ganância. Um aproveitador pode rachar o sistema. A ganância é contagiosa.

O jogo dos bens públicos é explicado logo a seguir. Um grupo de pessoas recebe alguns reais e é informado de que é possível colocar uma quantia qualquer dentro de um pote comunitário. Para cada rodada de doação, o pesquisador então dobra o valor do pote, e assim todos recebem de volta uma porção igual.

Se temos dez pessoas e cada uma recebe 2 reais, e então cada uma coloca essa quantidade no pote, o total será de R$ 20. O total é então dobrado e dividido entre os dez, e todos recebem R$ 4. O jogo segue bem por algumas rodadas – afinal, se todo mundo colocar sempre a máxima quantidade possível no pote comunitário, todo mundo ganha – até alguém perceber que pode colocar bem pouco, ou até mesmo nada, e ganhar mais dinheiro que os outros. O comportamento se espalha ao ponto de não haver mais valor a ser dobrado e, consequentemente, dividido.

O mais bizarro desse jogo é o quão ilógico é parar de contribuir só porque alguém do grupo está sendo um parasita. Se todos os outros estão sendo bons cidadãos dentro do jogo, todos continuam ganhando. O velho e emotivo cérebro entra em ação, entretanto, quando você percebe a trapaça. É uma resposta natural que serviu muito bem a seus antepassados. Você sabe lá no fundo que trapaceiros devem ser punidos porque basta apenas um deles para que a economia se estrague. Você prefere perder o jogo a ajudar alguém que não está lhe ajudando.

O impulso de ajudar terceiros e desencorajar trapaças foi algo que auxiliou primatas como você a sobreviverem em pequenos grupos por milhões de anos, mas quando o sistema se torna tão gigantesco e abstrato como o orçamento de uma nação ou o estado de bem-estar social, fica difícil ver o mundo através desses velhos comportamentos evolucionários.

Os paradigmas da escassez e da abundância

O paradigma da escassez
O paradigma da escassez, em imagem surrupiada do site da Laboriosa89

O ensaio de Hardin, no entanto, ainda sofre severas críticas, inclusive a de que o seu modelo impulsionou aquilo que tentava explicar: temos recursos suficientes, mas não sabemos gerenciá-los e o resultado será, no final, sempre negativo. A solução? Colocar pessoas e instituições no comando. O problema? Não há evidências de que isso seja um comportamento global. Hardin só afirmou que a sociedade é, como um todo, egoísta, e que a nossa colaboração em rede nos levará para a perdição.

In short, Hardin didn’t describe the behavior of herdsmen in pre-capitalist farming communities — he described the behavior of capitalists operating in a capitalist economy. The universal human nature that he claimed would always destroy common resources is actually the profit-driven “grow or die” behavior of corporations.

The myth of the Tragedy of the Commons, por Ian Angus

E, às vezes, parece que é assim que as coisas funcionam. Hoje, a sociedade age de forma perene em uma vida finita: estudamos e entramos na universidade com a mentalidade competitiva, fazemos os mesmos trabalhos durante a vida toda, queremos estabilidade financeira e estocamos, guardamos e mantemos porque, no fundo, o medo de faltar se sobressai ao impulso de se dividir. Os paradigmas explicam esses diferentes meios de olhar a nossa realidade: em vez da lógica da competitividade, do estoque, do medo e da escassez, o paradigma da abundância afirma que os recursos são infinitos, desde que sejamos inclusivos, colaborativos e que permitamos que esse fluxo passe por nós.

O paradigma da abundância
O paradigma da abundância, em mais uma imagem surrupiada da Laboriosa89

Abundância, então, nada mais é do que ter acesso ao que precisa, quando precisa, sem a necessidade de estocar. Tem pra todo mundo, sim.


Referências

 

Mas o que a Estonia alcançou faz os californianos do norte parecerem retardatários: apesar de apenas metade do país possuir uma linha de telefone em 1991, em 1997, 97 por cento das escolas estonianas estavam online. Em 2000, as reuniões de gabinete eram feitas sem papel. Em 2002, o governo construiu uma rede Wi-Fi gratuita que cobria a maior parte das áreas povoadas. Em 2007, foi introduzido o voto eletrônico e, em 2012, grandes quantidades de cabos de fibra ótica começaram a ser colocados – prometendo conexões de dados ultravelozes – e 94% das declarações de imposto de renda do país estavam sendo feitas online, tomando dos usuários uma média de cinco minutos para preencher as partes que não tinham sido concluídas automaticamente pela integração entre a administração fiscal e os bancos locais. Hoje, toda tarefa que pode ser feita através de um serviço digital, está sendo feita assim.

Why you should be an e-resident of Estonia, em inglês

Clearbit Logo API

Com a API gratuita de logos da Clearbit, é possível usar rapidamente imagens de empresas em websites. Basta chamá-la em uma tag img usando o domínio da companhia e a imagem será mostrada inline:

<img src="https://logo.clearbit.com/medium.com" />

A API também aceita alguns parâmetros, como size, format e greyscale:

<img src="https://logo.clearbit.com/wordpress.org?size=100&greyscale=true" />

Pesquisa com os participantes da manifestação do dia 12 de abril de 2015

No Facebook, tem circulado uma pesquisa feita pelo professor Pablo Ortellado, da USP, e pela professora Esther Solano, da UNIFESP, sobre o perfil dos manifestantes que participaram da marcha de 12 de abril de 2015 que, queira ou não, foi marcada por basicamente uma bandeira: o pedido de impeachment da presidente.

É meio assustador verificar como os dados refletem as fotos, os vídeos e as declarações dos manifestantes divulgadas na mídia: dos entrevistados, 77% são brancos e quase metade das pessoas presentes no protesto possui renda superior a R$ 7.880. Acho vergonhoso ver formadores de opinião usando a expressão “elite branca” meio que pra tudo, mas há, talvez, uma razão para isso.

Mais perturbador ainda, quem sabe, é ver a relação das pessoas com os meios de informação. Dois extremos como Paulo Henrique Amorim e Reinaldo Azevedo aparecem com grandes índices de confiança, sendo que os dois só perdem para a diva do cidadão e da cidadã de bem, Rachel Sheherazade. Além disso, mais da metade dos entrevistados diz que se informa em algum nível sobre política via WhatsApp e 47,3% se informam muito pelo Facebook, o que não seria um problema se boa parte das frases absurdas tomadas como verdade pelos entrevistados não tenham se originado em ambas as ferramentas.

A desinformação – ou melhor, a nossa falta de vontade em confirmar fatos e fontes – é a grande vitoriosa. Enfraquece o debate, empobrece os argumentos e, mais do que tudo, nos transforma em papagaios de pirata. Afinal, se hoje se afirma que o bolsa-família “só financia preguiçoso”, entre outras sandices, talvez seja o momento de nos apropriarmos mais da política.

E como disse Bruno Torturra, do Fluxo, em seu perfil no Facebook:

A mídia começa a ser tão responsável quanto vítima nessa altura. Enquanto sofre financeiramente, demite em massa e perde circulação, pode e deve seguir batendo no governo. Que siga à vontade para opinar, pautar e excretar regras em editoriais como é de sua função e direito.

Mas, pela madrugada, e em nome da sua própria subsistência… que ajude a reparar o déficit de educação política com mais reportagem, inteligência, isonomia, apuro e, principalmente, um pouco de cuidado com a frágil sanidade pública.

Porque ao apostar nessa narrativa expiatória da política, a imprensa está investindo em um leitor que, no fundo, não o é.

12 de abril, remodelado

Aproveitei o interesse no assunto e, como pequena distração, recriei a página que foi feita para hospedar os dados da pesquisa. Meu objetivo foi tentar torná-la um pouco mais didática e amigável, fazendo uso de ferramentas abertas de desenvolvimento.

Criei e hospedei a página dentro do GitHub. O código do repositório, batizado de 12deabril, está disponível também.

Sete anos no Tibet

Embora eu tenha aprendido, na Ásia, como meditar, a resposta final para o enigma da vida não foi concedida a mim. Porém, pelo menos aprendi a contemplar os acontecimentos da vida com tranquilidade e não me deixar ser arremessado para frente e para trás pelas circunstâncias em um mar de dúvidas.

Em Sete anos no Tibet, o austríaco Harrer conta um pouco de seu caminho, iniciado ao ser feito prisioneiro de guerra na Índia, durante a segunda guerra mundial, e só finalizado após a invasão ao Tibet pelo exército comunista chinês em 1950. Fugitivos de uma série de campos, Heinrich e alguns companheiros – aqui, principalmente Peter Aufschnaiter – seguiram Tibet adentro com o objetivo de encontrar exílio no país, então neutro. Vila após vila, conhecendo pessoas, estudando a língua, fugindo de ladrões, fazendo amizade com iaques e forjando vistos, os dois amigos atravessaram o Himalaia e alcançaram Lhasa, a capital sagrada. É incrível constatar que, seis anos depois do início dessa jornada, Harrer se tornaria tutor e um grande amigo do décimo quarto Dalai Lama.

Um livro como Sete anos no Tibet, contado de forma tão simples, tão calma e apaixonada, faz reacender a vontade de viajar por aí.

Gitter, agora gratuito para times de até 25 pessoas

Gitter é uma plataforma de comunicação de usuários do GitHub. O objetivo do aplicativo é melhorar a troca de informações entre pessoas e organizações ao oferecer salas públicas e privadas de conversa e integrar algumas outras boas ferramentas de gerenciamento de projeto, automação e comunicação.

A partir de agora, o Gitter é totalmente gratuito para times de até 25 pessoas. Ilimitadas salas de conversa pública e privada, acesso a todo histórico de conversas e integrações infinitas estão entre as novidades.

Ainda que hoje eu esteja usando muito mais o Slack, o Gitter é uma ferramenta bem bacana de se mexer, principalmente se quase toda a sua comunicação se dá através do GitHub. Vale o teste!